Raio-x, olfato treinado e um trabalho que não para: em Confins, o combate ao tráfico de animais virou rotina. Na semana passada, a triagem de bagagens do Aeroporto Internacional de Belo Horizonte interceptou corais marinhos e um peixe embalados em sacos plásticos dentro de malas. A carga tinha passado por outros terminais e só foi barrada em Minas. Foi mais um capítulo de uma lista que inclui um jabuti na cintura de um passageiro em cadeira de rodas, caranguejos transportados no período de reprodução e uma cobra do milho abandonada numa lixeira quando o dono percebeu a fiscalização.
Corais e peixe na mala, jabuti na cintura: como as apreensões acontecem
No caso mais recente, os operadores do raio-x notaram formatos orgânicos e volumes de líquido incompatíveis com o declarado. A bagagem foi separada, aberta na presença do passageiro e de agentes de segurança, e o material foi retido. Corais e peixes vivos exigem autorizações específicas e condições controladas de transporte. Em sacos improvisados, o risco de asfixia, choque térmico e morte é alto. Todo o material seguiu para o Ibama, que faz a autuação, decide a destinação e comunica outros órgãos quando necessário.
Segundo a concessionária BH Airport, não foi um ponto fora da curva. Já houve tentativa de levar um jabuti preso ao corpo, camuflado por roupas e pela posição sentada do passageiro. Em outra ocorrência, caranguejos de mangue foram encontrados durante o período de defeso — quando a captura é proibida para garantir a reprodução. Teve também a cobra do milho, espécie norte-americana vendida ilegalmente no Brasil. Ao notar a inspeção, o viajante deixou o animal numa lixeira, criando um risco extra de fuga e contaminação de terceiros.
Essas apreensões seguem um protocolo. Tudo começa no filtro de segurança: imagens do raio-x chamam atenção, o comportamento do passageiro pode levantar dúvidas, e auditores cruzam informações de voo, origem e tipo de bagagem. A partir daí, entram Receita Federal, Polícia Federal e Ibama, cada um na sua competência. O aeroporto registra a ocorrência, mantém a cadeia de custódia do que foi encontrado e aciona os centros de triagem especializados.
Quando há animais vivos, o destino costuma ser um Cetas (Centro de Triagem de Animais Silvestres), onde veterinários examinam, estabilizam e, se possível, reabilitam para devolução à natureza. Em espécies exóticas, como a cobra do milho, a reintrodução não ocorre; elas podem ser encaminhadas a instituições autorizadas para guarda, pesquisa ou educação ambiental, sempre sob controle público.
Na parte legal, o enquadramento mais comum é o da Lei de Crimes Ambientais (Lei 9.605/98), que pune matar, capturar, vender, transportar ou guardar espécies da fauna silvestre sem licença. Há também agravantes quando a prática envolve períodos de reprodução, risco de extinção, maus-tratos ou comércio interestadual/internacional. Em casos com espécies marinhas, como corais, entram regras adicionais de coleta, transporte e comércio, além de tratados internacionais de proteção.
Por que isso importa: impactos, riscos e o que o passageiro precisa saber
O problema não é só moral ou legal. É ecológico, sanitário e econômico. Animais retirados do ambiente quebram cadeias ecológicas, reduzem a reposição natural de populações e alimentam um mercado clandestino que vai de lembranças “exóticas” a coleções e cativeiros. No caso dos corais, a remoção enfraquece recifes que protegem a costa, servem de berçário para peixes e sustentam atividades de pesca e turismo.
Do ponto de vista sanitário, répteis e anfíbios podem carregar salmonelas e outros patógenos; crustáceos e peixes, se mal condicionados, liberam líquidos e odores que contaminam malas e equipamentos. Há também o risco de espécies invasoras: um animal exótico abandonado ou que escape pode se estabelecer no ambiente e deslocar espécies nativas, como já aconteceu em várias regiões do mundo.
Confins é um hub importante, com voos nacionais e internacionais, o que torna a vigilância um trabalho de formiguinha. Uma mala pode cruzar três ou quatro aeroportos até ser flagrada. A mensagem que fica para quem pensa em “tentar a sorte” é direta: a chance de ser pego existe em qualquer ponto da rota, e a penalidade não se restringe à multa — pode incluir processo criminal, perda definitiva do animal e proibição de obter licenças ambientais.
Para o passageiro que transporta animais de forma legal, vale reforçar: cada espécie tem regras. Cães e gatos seguem normas das companhias aéreas e exigem documentos veterinários. Espécies silvestres nativas precisam de origem legal comprovada e autorizações específicas; em muitos casos, a licença individualizada acompanha o animal com marcação. Para organismos marinhos, como corais e peixes ornamentais, há controles adicionais, inclusive de coleta e de trânsito entre estados. Em voos internacionais, as exigências são ainda mais duras e podem incluir certificados sanitários e autorizações do país de origem e de destino.
Quer evitar dor de cabeça e fazer o certo? Alguns cuidados práticos ajudam:
- Desconfie de ofertas “sem nota” ou com preços muito abaixo do mercado. Animal barato demais geralmente tem origem ilegal.
- Peça comprovação de origem e licenças antes de comprar qualquer silvestre ou organismo marinho, mesmo para aquário.
- Consulte a companhia aérea e as normas ambientais com antecedência. Sem documentação, a apreensão é certa.
- Nunca transporte fauna escondida no corpo ou em bagagens. Além de crime, coloca o animal em sofrimento e risco de morte.
- Se testemunhar suspeita de tráfico em aeroportos, acione a segurança do terminal. Ibama e Polícia Federal também recebem denúncias pelos canais oficiais.
Do lado do aeroporto, as equipes se apoiam em tecnologia e treino. O raio-x revela volumes com água, estruturas ósseas, caixas com ventilação improvisada e padrões típicos de camuflagem. Perfis de risco são cruzados: rotas, compras em cima da hora, peso de bagagem e histórico de inspeções. Nada disso substitui a abordagem humana — um diálogo simples muitas vezes desmonta narrativas e leva à admissão do transporte irregular.
Os casos citados em Confins mostram a variedade de métodos e espécies: do jabuti amarrado à cintura, que depende de movimento e regulação térmica e sofre com imobilização, aos caranguejos no defeso, cuja captura desequilibra o ciclo reprodutivo dos manguezais. E a cobra do milho, por ser exótica, adiciona o risco de invasão biológica e de transmissão de doenças ao contato humano.
Quando a bagagem retida já cruzou outros aeroportos, o Ibama costuma compartilhar informações com outras autoridades para mapear rotas e, se for o caso, chegar a fornecedores e compradores. O objetivo é romper a cadeia, não apenas recolher o “produto” no destino final. Em operações mais amplas, apreensões em aeroportos viram pistas para ações em lojas, criadouros irregulares e pontos de coleta na natureza.
Na ponta, fica a lição: a proteção da fauna e da flora passa por fiscalização efetiva, mas também por comportamento do consumidor. Se não há demanda, o mercado ilegal perde força. Confins, como um dos maiores terminais do país, é vitrine dessas escolhas — e dos resultados quando tecnologia, coordenação e responsabilidade se alinham.